Artigo resultado da pesquisa monogrĂĄfica de Ana Caroline de Oliveira Santos:
Se preferir, escute aqui a versĂŁo em podcast.
A CENSURA ĂS MĂSICAS DE PROTESTO NOS ANOS DE CHUMBO DO REGIME MILITAR DO BRASIL (1969-1974).
No Brasil, Ă© muito comum lembrarmos da prĂĄtica de censura apenas no perĂodo do Estado Novo (1937-1945), ou no perĂodo do Regime Militar (1964-1985). A verdade Ă© que a censura acontece desde a Antiguidade em toda parte do mundo.
Ă interessante esclarecer que a prĂĄtica da censura no Brasil nunca obedeceu a um padrĂŁo de funcionamento, mas se for necessĂĄrio apontar uma semelhança, um padrĂŁo, podemos dizer que em todos os perĂodos, os governantes recorreram a esse mecanismo de controle para impedir a circulação de informaçÔes contrĂĄrias aos seus interesses.
Ă muito comum realizar-se uma anĂĄlise sobre a Ditadura Militar apresentando o uso da tortura como fator central para exemplificar o sistema de repressĂŁo. A tortura como ação arbitrĂĄria, realizada por alguns interrogadores, transformou-se em mĂ©todo cientĂfico, criteriosamente planejado, com a finalidade de obtenção de informaçÔes sobre atividades ou indivĂduos considerados inimigos internos da nação (MAGALHĂES, 1997, p.1). Mas aqui, usando como referĂȘncia alguns autores como Marionilde MagalhĂŁes e Marcos Napolitano, pretendemos destacar outro mecanismo repressivo, que em alguns momentos demonstrou-se mais eficaz: a repressĂŁo preventiva.
Segundo MagalhĂŁes (1997), a repressĂŁo preventiva consistia na vigilĂąncia e controle cotidiano sobre a sociedade, uma prĂĄtica que havia sido consolidada a partir da criação da âComunidade de InformaçÔesâ.
Todas as instituiçÔes, espaços ou personalidades ligadas à cultura eram severamente vigiadas pelo regime militar. A justificativa para tal ação era de que a esfera da cultura era meio fåcil para a infiltração de comunistas e subversivos que procuravam difundir suas ideologias, confundindo o cidadão inocente.
A MPB, sigla que congregava a mĂșsica de matriz nacional-popular desde meados dos anos 60 e que se declarava em suas letras abertamente contra o regime (NAPOLITANO, 2004), se tornou o maior alvo de vigilĂąncia civil e militar dentro desta esfera cultural. Segundo Napolitano (2004), a capacidade de aglutinação de pessoas em torno dos eventos musicais era uma das preocupaçÔes constantes dos agentes da repressĂŁo.
A atuação dos agentes de repressĂŁo no meio musical, de forma mais violenta, foi de 1967 a 1982. Entre 1967 e 1968 a MPB jĂĄ havia se consolidado como gĂȘnero musical e movimento de cunho nacional-popular, o que teve como consequĂȘncia o sucesso dos festivais da canção. Concomitantemente, houve o recrudescimento das questĂ”es estudantis. Isto levou os ĂłrgĂŁos repressivos a destacarem o papel da mĂșsica como um meio para propagandas subversivas.
Pode-se citar Geraldo VandrĂ© como um dos principais suspeitos como responsĂĄvel pelo surgimento de mais opositores ao regime. Logo apĂłs VandrĂ©, surgiram muitas referĂȘncias nos documentos a outros artistas, como por exemplo: Caetano Veloso, Gilberto Gil, Edu Lobo e Nara LeĂŁo. A partir de 1971, quem passou a ocupar a maior parte dos informes e relatĂłrios foram os shows do chamado Circuito UniversitĂĄrio. Naquele momento, os artistas considerados inimigos do regime passaram a ser, em escala decrescente: Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Milton Nascimento, Gonzaguinha e Ivan Lins.
Depois de 1978, a suspeição recaiu sobre os compositores e cantores que participaram da Campanha da Anistia e dos eventos do movimento operĂĄrio. A cantora Elis Regina, que jĂĄ havia sido citada em relatĂłrios anteriores, começou a aparecer com mais frequĂȘncia. A justificativa para tal, foi a gravação da canção O bĂȘbado e a equilibrista, de JoĂŁo Bosco e Aldir Blanc, canção considerada o hino da Anistia.
ApĂłs pesquisas em alguns artigos de especialistas em repressĂŁo militar, especificamente a repressĂŁo preventiva e a lĂłgica de suspeição, percebe-se que muitos autores afirmam que a maioria dos casos de veto ou censura dos artistas e eventos ligados Ă MPB foram unicamente baseados em hipĂłteses. Como disse Marcos Napolitano, em muitos informes obtidos por fontes hĂĄ a presença de termos como âconstaâ, âsegundo anotaçÔesâ, e essas hipĂłteses, na visĂŁo dos agentes, bastavam para colocar em prĂĄtica todo o mecanismo de repressĂŁo necessĂĄrio para evitar um possĂvel avanço de ideias subversivas ou uma revolução comunista.
FORMAS DE RESISTĂNCIA Ă CENSURA MUSICAL
Todas as cançÔes eram submetidas Ă censura prĂ©via para serem analisadas, modificadas, sofrerem cortes ou atĂ© mesmo serem proibidas. PorĂ©m, sabe-se que em alguns momentos os artistas realizavam modificaçÔes para passar pelo crivo da censura, mas, no momento da gravação ou de apresentaçÔes, a letra original da canção era mantida e consequentemente muitos processos foram impostos por conta da desobediĂȘncia dos artistas.
Percebendo que resistir e manter suas cançÔes com as letras originais era ineficaz, muitos artistas passaram a modificar algumas palavras ou atĂ© mesmo frases inteiras, porĂ©m, mantendo o carĂĄter contestatĂłrio ao regime, dessa vez mascarado por inversĂ”es, ironias, duplos sentidos e outras estratĂ©gias linguĂsticas. Por conta desse mecanismo, nĂŁo raro, muitas letras passavam despercebidas pelo Departamento de Censura de DiversĂ”es PĂșblicas, mas nunca pelo pĂșblico.

A âlinguagem de frestaâ
Os compositores e cantores usaram, como alternativa, o que ficou conhecido como linguagem de fresta, que nada mais era do que uma linguagem repleta de metĂĄforas que tinham como objetivo disfarçar o verdadeiro sentido das letras âfazendo com que a mensagem passasse pela âfrestaâ das palavras (BERG, 2002, p. 123). Podemos lembrar a mĂșsica âApesar de vocĂȘâ, de Chico Buarque, que passou despercebida, inicialmente, pelo DCDP e foi aprovada. AlĂ©m de Caetano Veloso, Dilmar Miranda tambĂ©m usa esse termo com a expressĂŁo âde olho na frestaâ. Gilberto Vasconcellos tambĂ©m divulgou a expressĂŁo em 1977. Na canção intitulada âO Samba de Orlyâ, escrita no exĂlio âvoluntĂĄrioâ de Chico Buarque, ele conseguiu passar a mensagem substituindo duas frases sem que o sentido real fosse alterado. Nas duas Ășltimas linhas, Chico Buarque substituiu âpela omissĂŁoâ por âpela duraçãoâ e âum tanto forçadaâ por âdessa temporadaâ. Se levarmos em conta o contexto do perĂodo, fica simples perceber que os âda pesadaâ aos quais Chico Buarque se refere, sĂŁo o governo, os censores e todos aqueles que detinham o poder.
Podemos citar outro exemplo de uso da metĂĄfora a fim de driblar a censura: a composição de Raul Seixas, intitulada âMosca na sopaâ. Nessa canção, segundo Amilton Justo de Souza: âRaul faz uma crĂtica ao regime militar brasileiro e, ao mesmo tempo, presta uma homenagem ou apologia Ă quelas pessoas que continuavam se engajando na luta armada. Ou seja, apesar das mortes efetuadas pela repressĂŁo militar contra aqueles que aderiam Ă luta armada, era preciso acreditar que mesmo assim iriam aparecer outras pessoas para ocupar os lugares daquelas que se foram, perturbando o sono dos militares (SOUZA, 2010, p. 246)â. Exterminar/eliminar nĂŁo era, neste caso, referente aos insetos, e sim Ă eliminação de opositores do governo.
Outra forma, entre inĂșmeras adotadas pelos compositores para resistir ao cerco da censura sobre suas cançÔes e que, com o tempo, passou a ser bastante conhecida, foi o uso de pseudĂŽnimos. O cantor Taiguara usou pseudĂŽnimo feminino em algumas de suas composiçÔes. Algumas composiçÔes do disco Imyra, Tayra, Ypy â Taiguara, de 1975 - foram assinadas com o nome Gheisa Chalar da Silva, sua esposa na Ă©poca. Chico Buarque tambĂ©m recorreu ao uso de pseudĂŽnimos, assinando algumas cançÔes como Julinho da Adelaide ou Leonel Paiva. ApĂłs os censores descobrirem essa tĂĄtica, eles passaram a exigir o nĂșmero da identidade dos artistas, dificultando o uso dessa forma de resistĂȘncia.
Em determinados momentos, os censores eram orientados a atentar mais para a censura polĂtica e, em outros, mais para a censura moral. O que nĂŁo devemos nos esquecer Ă© de que os âanos de chumbo do regime militarâ foram o perĂodo em que, certamente, mais ocorreu a autocensura por parte dos compositores e isso se justifica pelo recrudescimento da repressĂŁo apĂłs o decreto do AI5.
SOBRE A AUTORA
Ana Caroline
Ana Caroline, formada em história e entusiasta da psicologia. Pensa alto, fala alto e ama boas conversas. Tem esperança de que a construção de um mundo melhor começarå pela educação e no ensino båsico de qualidade.
Encontre Ana Caroline Oliveira nas redes sociais:
Instagram: @anys_oliiveira
Facebook: Ana Oliveira
Conheça o Programa de História da Arte: para conhecer a história da arte de forma aprofundada, Curso on-line.

ReferĂȘncias bibliogrĂĄficas:
BERG, Creuza de Oliveira. Mecanismos do silĂȘncio: expressĂ”es artĂsticas e censura no
regime militar (1964-1984) / Creuza de Oliveira Berg. SĂŁo Carlos: EdUFSCar, 2002.
BRITO, Eleonora Zicari. A MĂșsica Popular Brasileira nos conturbados Anos de Chumbo:
Entre o engajamento e o desbunde. Projeto histĂłria nÂș 43. Dezembro de 2011.
MAGALHĂES, Marionilde Dias Brepohl de. A lĂłgica da suspeição: sobre os aparelhos
repressivos Ă Ă©poca da ditadura militar no Brasil. Revista Brasileira de HistĂłria, SĂŁo
Paulo, ANPUH, v. 17, n. 34, 1997
NAPOLITANO, Marcos. Seguindo a Canção: Engajamento PolĂtico e IndĂșstria Cultural
na MĂșsica Popular Brasileira (1959-1969). SP: Anablume: Fapesp, 2001.
SOUZA, Amilton Justo de Souza. âĂ o meu parecerâ: a censura polĂtica Ă mĂșsica de
protesto nos anos de chumbo do regime militar do Brasil (1969-1974). JoĂŁo Pessoa â PB.
Outubro de 2010
SOUZA, Amilton Justo de. A censura polĂtica da DivisĂŁo de Censura de DiversĂ”es
PĂșblicas Ă mĂșsica de protesto no Brasil (1969-1974). IN: ANPUH â XXV SIMPĂSIO
NACIONAL DE HISTĂRIA. Fortaleza, 2009.